Artista, arteterapeuta e o uso terapêutico da arte: por que é importante diferenciar?
Atualizado: há 5 dias

A arte pode estar presente em muitos espaços: na cultura, na educação, em processos criativos, em projetos sociais e também em contextos de cuidado.
Mas utilizar a arte em uma atividade não significa, necessariamente, fazer Arteterapia.
Essa distinção ganhou ainda mais importância recentemente, com a regulamentação da profissão de arteterapeuta no Brasil pela Lei nº 15.435, de 17 de junho de 2026. A lei define o arteterapeuta como "o profissional que utiliza recursos expressivos das artes visuais, música, dança, canto, teatro e literatura como elementos capazes de favorecer processos terapêuticos, relacionados ao autoconhecimento, à autoexpressão, ao desenvolvimento humano, à criatividade e à prevenção e reabilitação de doenças mentais e psicossomáticas". (Portal da Câmara dos Deputados)
A regulamentação representa um passo importante para dar maior clareza a um campo que há anos vem sendo desenvolvido no Brasil e no mundo. Ao mesmo tempo, ela torna ainda mais necessário diferenciar quem trabalha com arte de quem possui formação específica para atuar como arteterapeuta.
Artista não é sinônimo de arteterapeuta.
Um artista pode trabalhar com pintura, desenho, escultura, fotografia, música, dança, teatro, escrita ou outras linguagens expressivas.
Sua formação e sua prática estão relacionadas à criação, à pesquisa, à linguagem artística, à expressão, à produção cultural ou a diferentes formas de experiência estética.
Isso não significa que o artista não possa trabalhar em contextos de cuidado, educação ou desenvolvimento humano.
Significa apenas que ser artista, por si só, não corresponde a ser arteterapeuta.
A Arteterapia possui outro campo de conhecimento e outra finalidade profissional. Nela, os recursos artísticos são utilizados dentro de um processo terapêutico, com conhecimentos específicos sobre processos humanos, desenvolvimento, relações, expressão e acompanhamento.
Por isso, não basta saber utilizar materiais artísticos ou ter experiência com processos criativos para atuar como arteterapeuta.
A formação faz parte da prática
Uma formação consistente em Arteterapia não se limita ao aprendizado de técnicas artísticas.
Ela envolve uma preparação teórica, prática e vivencial para que o profissional possa compreender o processo arteterapêutico e conduzi-lo com responsabilidade.
Os parâmetros formativos desenvolvidos pela União Brasileira de Associações de Arteterapia (UBAAT) trabalham com uma formação de no mínimo 560 horas, contemplando diferentes dimensões do desenvolvimento profissional.
Entre elas estão: formação teórica e teórico-prática; práticas arteterapêuticas supervisionadas; supervisão de outro terapeuta; atividades vivenciais; desenvolvimento pessoal do terapeuta; estudo das linguagens expressivas; trabalho corporal; trabalho com grupos; desenvolvimento humano entre outros.
Essa composição é importante porque o profissional não está simplesmente ensinando alguém a desenhar, pintar ou criar. Ele está acompanhando uma experiência humana por meio de recursos expressivos.
E isso exige preparo.
Por que a prática supervisionada é tão importante?
Existe uma diferença significativa entre propor uma atividade artística e acompanhar terapeuticamente aquilo que emerge durante uma experiência artística.
Uma pessoa pode propor que alguém faça um desenho, por exemplo.
Mas, em um contexto arteterapêutico, podem surgir emoções, memórias, imagens, conflitos, sensações corporais, formas de expressão e conteúdos que exigem do profissional capacidade de escuta, compreensão e manejo.
É justamente por isso que a formação não deveria se restringir ao conhecimento de técnicas.
A experiência prática supervisionada, a supervisão e o desenvolvimento pessoal fazem parte da preparação para lidar com a complexidade do encontro terapêutico.
A regulamentação também ajuda a trazer mais clareza
Durante muitos anos, diferentes profissionais passaram a utilizar recursos artísticos em atividades de desenvolvimento pessoal, educação, bem-estar e cuidado.
Essa diversidade de práticas pode ser positiva.
Mas também pode gerar confusão.
Uma oficina de pintura é uma oficina de pintura.
Um processo artístico é um processo artístico.
Uma atividade de expressão corporal é uma atividade de expressão corporal.
E uma prática arteterapêutica é uma prática conduzida dentro de um campo específico de conhecimento e atuação profissional.
Nomear corretamente cada prática protege tanto o profissional quanto a pessoa que procura esse tipo de atendimento.
A regulamentação da profissão representa, nesse sentido, um avanço importante para dar maior visibilidade e reconhecimento à Arteterapia. Ao mesmo tempo, a própria legislação aprovada em 2026 teve vetados os dispositivos que estabeleciam os requisitos específicos para o exercício profissional e a fiscalização. Por isso, é importante não confundir a existência da lei com a definição legal de uma carga horária única de formação. (Portal da Câmara dos Deputados)
E onde fica o artista?
O artista continua tendo um lugar próprio e fundamental.
A arte não precisa ser utilizada com finalidade terapêutica para ter valor.
Criar pode ser uma forma de investigar, experimentar, comunicar, questionar, imaginar, produzir cultura ou simplesmente estar em relação com o mundo.
Um artista pode, inclusive, desenvolver trabalhos que promovam reflexão, expressão e experiências significativas sem que isso seja denominado Arteterapia.
O ponto não é estabelecer uma hierarquia entre artista e arteterapeuta. É reconhecer que são práticas diferentes.
O artista não precisa ser arteterapeuta para trabalhar com arte em contextos de cuidado. E o arteterapeuta não precisa ser um artista profissional para exercer a Arteterapia.
O que diferencia o arteterapeuta é a formação específica e a preparação para utilizar os recursos expressivos dentro de um processo terapêutico.
Arte e terapia podem se encontrar, sem que uma coisa precise ser confundida com a outra
A arte possui inúmeras possibilidades. Ela pode fazer parte de processos educativos, culturais, sociais, corporativos, comunitários e terapêuticos.
Quando entra em um processo terapêutico, porém, é importante saber qual é a formação de quem conduz, qual é o enquadre da prática e como ela é apresentada ao público.
Essa clareza não diminui a arte. Pelo contrário.
Ela permite reconhecer a potência da criação sem transformar toda experiência artística em terapia.
E permite também reconhecer a Arteterapia como um campo profissional específico, que exige formação, prática, supervisão e responsabilidade.
Artista é artista.
Arteterapeuta é arteterapeuta.
E a arte pode estar presente nos dois, mas não da mesma maneira.
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